
Medeia, princesa da Cólquida (hoje Geórgia), traiu o seu País e o seu Pai, entregando o Velo de Ouro a Jasão, o herói grego comandante dos Argonautas. Segue-o apaixonadamente até à Grécia onde vive como exilada durante dez anos, “em tudo se submetendo à vontade do marido” e às leis e costumes de um país estrangeiro. A acção decorre em Corinto, quando Jasão a repudia para se tornar genro do rei Creonte. Medeia é expulsa com os dois filhos. Fica reduzida à condição de apátrida e ela mesma se considera como um “despojo” trazido de uma terra bárbara. O ultraje sofrido por ela, é também um ultraje aos deuses antigos, perante os quais Jasão fez juramentos que agora quebra. Medeia, herdeira da ordem antiga, jura vingá-la destruindo a nova ordem. Destrói a casa real de Corinto, matando o rei e sua filha e destrói Jasão, matando os filhos de ambos. Para “espanto” dos mortais só é castigada pelo seu próprio sofrimento. O Sol, pai de seu pai, envia-lhe um carro que lhe permite a fuga gloriosa…
Na poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, o qualificativo "justo" rima com "inteiro", "livre" ou "limpo", circunscrevendo um lugar utópico onde a luminosidade dos deuses gregos consome, inclemente, a gordura das nossas perversões mesquinhas.
Ora, nem Sophia me parecia capaz de justificar Medeia, princesa da Cólquida, que despedaça o irmão para ajudar Jasão a fugir com o Velo de Ouro; ludibria Creonte, rei de Corinto, que casara sua filha com Jasão; incendeia a que lhe roubou o marido, o pai e o palácio real; e consuma a vingança, assassinando os filhos que tivera de Jasão. E, no entanto, a sua deslumbrante rescrita do texto de Eurípides opera essa transmutação. Poeta de sortilégios, que não recusa a violência, Sophia torna lapidar e inteiro o discurso de Medeia, mulher estrangeira, traída e escorraçada.
Fernanda Lapa escolheu Manuela de Freitas para este papel de excesso. E só ela - a melhor actriz portuguesa viva - poderia reanimar o "uivo" absolutamente desmesurado de Sophia. É sublime o modo como a actriz habita a terra queimada de Medeia, como domina primorosamente a sua riquíssima paleta psicológica, como - atenta e rigorosa - a humaniza na nobreza e terror mais absolutos.
Encolhidos e colados às cadeiras, os espectadores reconhecem na sua argumentação irrazoável o despeito que hoje engendra horrores inesperados num avião, num comboio ou no metro duma qualquer cidade.
Abdicando, em palco, das crianças mudas que interpretam os filhos da protagonista, a encenadora faz do público - também mudo - destinatário da sua ira. No escuro - como negros são os trajes dos incautos Creonte e Jasão - os espectadores de Medeia sofrem o encandeamento orgíaco da neta do Sol (tão bem sinalizado, por António Lagarto, nos resplandecentes figurinos da Ama e do Coro, na aridez quase brutal que deforma a arquitectura neoclássica do Palácio, na ofuscante versão tecnológica do Carro do Sol, que salva Medeia; ou nas coreografias ébrias de Marta Lapa; ou no cromatismo quente e impressivo que assume a luz de Nuno Meira).
A ama-corifeu de Luísa Cruz é o contraponto sensível deste desregramento (como o são as coreutas bailarinas-cantoras que, temerosas, se agitam numa dança pagã). A nobreza cansada de Creonte (António Rama) ou demagogia dominadora de Jasão (João Grosso) alimentam o inebriante festim de sangue em que a música de João Lucas recriou o "espectáculo total" que a tragédia foi na Antiguidade. São ecos - geniais e electrizantes - dum tempo que nos enche de espanto, de culpa e de esperança.